Em 02 de março de 2020 foram notificados os primeiros casos em Portugal e, desde então, foram registadas mais de 5,6 milhões de infeções com o coronavírus que provoca a covid-19, o equivalente a 53% dos cerca de 10,6 milhões de residentes no país, de acordo com os últimos dados da Direção-Geral da Saúde consultados pela Lusa.
Desde o início deste ano até 25 de fevereiro, verificaram-se cerca de 40 mortes associadas à covid-19, com vários dias sem registo de óbitos, um contraste absoluto com o mesmo período de 2021, quando morreram 9.250 pessoas, após um Natal de 2020 quase sem restrições.
"O SARS-CoV-2 tem demonstrado uma notável capacidade de adaptação. Neste sentido, surgiram muito rapidamente variantes e subvariantes durante a pandemia. Felizmente, acabou por acontecer o que é mais comum, que é a evolução dos vírus para formas menos letais", adianta à agência Lusa o especialista Miguel Castanho.
Segundo o investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, as infeções naturais juntaram-se à vacinação "no sentido de conferir uma imunização relativamente alargada da população", mas continua a existir "um risco acrescido de evolução do vírus para variantes que voltem a ser mais agressivas".
"O perigo ainda não se consumou, mas o risco é real. É preciso continuar a vacinar, sobretudo aqueles para quem este perigo representa maior risco de vida, isto é, os mais idosos", defende Miguel Castanho.
Cinco anos depois dos primeiros casos e das primeiras mortes, o cenário de hospitais no limite e de uma população sujeita a medidas restritivas para impedir novos contágios faz parte do passado, com os números oficiais a mostrarem que a covid-19 passou a ser uma doença infecciosa controlável.
Portugal vive agora uma realidade muito diferente dos primeiros dois anos de pandemia, quando o país viveu mais de 700 dias em função da covid-19, entre estados de emergência nas fases mais críticas e a situação de alerta, o nível mais baixo de resposta a situações de catástrofes.
Pela primeira vez o estado de emergência foi decretado desde que Portugal vive em democracia, em março de 2020, tendo sido renovado várias vezes por períodos de duas semanas em dois momentos distintos, num total de 218 dias em que o país esteve ao abrigo deste regime previsto na Constituição.
Ao longo das várias ondas pandémicas, os portugueses conheceram uma nova realidade: a máscara passou a ser obrigatória, o teletrabalho foi recorrente e cafés, restaurantes e lojas adotaram regras sanitárias e limitações de ocupação.
Nos piores períodos da pandemia, as medidas foram ainda mais restritivas, desde os confinamentos de toda a população, que levaram a cidades desertas, passando pela proibição de circulação entre concelhos em determinados dias e controlo de fronteiras, até ao impedimento de ajuntamentos na via pública e de visitas a hospitais e lares de idosos.
Mas foi a decisão de fechar as escolas uma das que gerou mais controvérsia, com alunos e professores a terem de se adaptar às aulas `online´, um encerramento que começou em meados de março de 2020, poucos dias depois de ter sido conhecido o primeiro caso positivo de infeção no norte do país.
Numa avaliação a este período, Miguel Castanho considera que a atuação das autoridades nacionais foi "genericamente" positiva, apontando que as primeiras restrições à entrada de viajantes de países afetados - China e Itália, por exemplo -- "parecem ter sido sensatas".
"As principais iniciativas para contenção dos picos de contágios também. A valorização da testagem e rastreio também foi uma aposta certa, embora com dificuldades de implementação", refere o especialista.
Nos primeiros dois anos da pandemia, o combate para vencer o coronavírus SARS-CoV-2 recaiu, sobretudo, nas vacinas, desenvolvidas, testadas e aprovadas em tempo recorde e que chegaram a Portugal no final de 2020, através de um sistema liderado pela Comissão Europeia.
A expectativa dos portugueses foi, logo após o início da campanha em 27 de dezembro de 2020, abalada por suspeitas de vacinação indevida e pela falta de vacinas, mas o processo entrou em "velocidade de cruzeiro" a partir de março de 2021.
O reforço contra a covid-19 passou a ser sazonal em Portugal, mas a cobertura vacinal tem baixado consideravelmente, ficando na atual campanha por pouco mais de 45% entre as pessoas com 60 ou mais anos.
Em maio de 2023, a OMS declarou o fim da emergência de saúde para a covid-19 a nível global, baixando o nível mais alto de alerta que estava em vigor para a pandemia, mas alertando que a doença não tinha terminado como ameaça de saúde pública.
Com o mundo e o país a regressarem à normalidade, Miguel Castanho defende que se deveria ter feito uma avaliação do que correu bem e mal nos anos mais críticos da pandemia, não no sentido de um "ajuste de contas e procurar bodes expiatórios, mas no sentido construtivo para se poder aprender e melhorar".
"Aliás, deveríamos ter o hábito de avaliar a implementação e impacto de todas as políticas públicas e grandes investimentos públicos. Não vale a pena persistir em erros ou equívocos, mas se não soubermos onde errámos ou falhámos, nunca estamos livres dessa persistência", alerta o investigador do iMM.
Leia Também: Covid-19 trouxe "mudanças profundas" no mercado de trabalho