"Nós fizemos um aumento de capital cheio de sucesso. [...] No dia 23 de julho [de 2014], o Banco de Portugal obriga a uma provisão cega de dois biliões [para fazer face a fraudes] e põe-nos abaixo da capitalização necessária [...]. Se não tivesse mandado fazer, hoje o BES poderia perfeitamente continuar a existir, porque mandaram fazer provisões a mais", afirmou, em julho de 2015, Ricardo Salgado.
No interrogatório então realizado no Departamento Central de Investigação e Ação Penal, em Lisboa, o ex-banqueiro acusou ainda o BdP de ter posto "um garrote" ao Grupo Espírito Santo (GES), cuja consequência foi, nomeadamente, o facto de um fundo norte-americano ter ficado "de borla" com a seguradora Tranquilidade, que pertencia ao BES.
"A verdade há de vir ao de cima. Certamente que cometi falhas [...]. Agora, o BES foi obrigado a desaparecer", afirmou.
No depoimento prestado no inquérito, Ricardo Salgado, afastado da presidência do BES pelo BdP em 13 de julho de 2014, insistiu por diversas vezes que desconhecia a real situação financeira do grupo e que tudo foi feito para proteger os clientes do banco.
"Se o grupo não tivesse colapsado, pode ter a certeza que os lesados do BES teriam sido reembolsados de tudo", garantiu, em julho de 2015, ao procurador José Ranito, que liderou a investigação.
A reprodução no julgamento das declarações de Ricardo Salgado, atualmente com 80 anos e doente de Alzheimer, começou em 16 de outubro, decorreu em sessões em que testemunhas não puderam comparecer e terminou hoje.
No início do julgamento, a defesa do ex-banqueiro alegou que tal seria nulo, uma vez que a doença de que sofre impede Ricardo Salgado de fazer o contraditório, mas o tribunal rejeitou o requerimento e ordenou a reprodução.
O antigo presidente do BES é um dos 18 arguidos no processo e responde por cerca de 60 crimes, incluindo um de associação criminosa e vários de corrupção ativa no setor privado e de burla qualificada.
O Ministério Público estima que os atos alegadamente praticados entre 2009 e 2014 pelos arguidos, ex-quadros do BES e de outras entidades do GES, tenham causado prejuízos de 11,8 mil milhões de euros ao banco e ao grupo.
O julgamento decorre desde 15 de outubro de 2024, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.
Leia Também: Empresário Helder Bataglia vai ser julgado na ausência no caso BES Angola