Ao fim de 20 anos a dedicar-se à arquitetura paisagista, Mariana Abranches Pinto deparou-se com um novo propósito: contribuir para a criação de comunidades mais compassivas e para o apoio das pessoas em situações vulneráveis, em várias vertentes.
De facto, foi depois de ter descoberto um cancro da mama, e de a sua filha ter sido diagnosticada com leucemia mieloblástica aguda, aos 15 anos, que a presidente da Compassio se lançou ao desafio de falar "sobre compaixão, sobre beleza, sobre o sentido de vida", uma vez que, na sua ótica, "o bom morrer e o bom viver são responsabilidade de todos".
Esta associação sem fins lucrativos, que foi criada em junho de 2019, atua nas "áreas do cuidar, da doença, do envelhecimento, do isolamento social e da solidão, da morte e do luto", sempre com "base na compaixão". É que, como recordou em conversa com o Notícias ao Minuto, "falar da morte não chama a morte, não é preciso bater na madeira".
Mariana Abranches Pinto não deixou, por isso, de mencionar a sua filha, Nini, que "aceitou a doença e a finitude de uma forma completamente extraordinária". E, apesar de ter morrido há cerca de 21 meses, o legado de Nini, que deu "uma lição enorme a todos", continua a tocar quem esbarra com os seus conteúdos.
Estas fases da vida, que todos vamos passar, com amor podem ser de uma beleza enorme. A morte e o luto levam-nos a pensar qual é o sentido disto tudo e a querer viver mais plenamente. Podem ser temas muito duros, mas também podem ter uma beleza enorme e [suscitar] uma procura de sentido de vida
Tem como formação de base a arquitetura paisagista, área na qual trabalhou durante 20 anos. O que é que a motivou a fundar a Compassio?
Foi a questão da fragilidade. Tive a minha filha doente aos dois anos, depois tive cancro da mama e, aos 15 anos, ela teve outro cancro. No meio disso tudo, surgiram-me muitas questões. Também fundei o ‘Grupo ao 3.º dia’, que é cristão, de procura de sentido e de partilha de pessoas doentes, com doenças graves ou crónicas. A certa altura, reparei que estava mais a ir a congressos sobre a morte e sobre como ajudar as pessoas doentes do que propriamente de arquitetura paisagista. Cheguei à conclusão de que não, não queria fazer isto só como voluntariado, queria trabalhar na área. O primeiro passo que tomei para que isso se concretizasse foi tirar um curso sobre comunidades compassivas. Fomos 14 os fundadores da Compassio, em junho de 2019, da qual sou presidente hoje e onde trabalho a tempo inteiro.
Na sua ótica, qual é a importância da compaixão, numa altura em que as sociedades são cada vez mais individualizadas e a morte continua a ser um tabu, como se fosse algo ao qual podemos escapar?
Por isso mesmo é que falamos destes temas. Até somos conhecidos como a associação que fala da morte e do luto, e ainda bem. Mas não é só sobre isso de que falamos. Também falamos sobre compaixão, sobre beleza, sobre o sentido de vida, porque acreditamos mesmo que o bom morrer e o bom viver são responsabilidade de todos. Estas fases da vida, que todos vamos passar, com amor podem ser de uma beleza enorme. A morte e o luto levam-nos a pensar qual é o sentido disto tudo e a querer viver mais plenamente. Podem ser temas muito duros, mas também podem ter uma beleza enorme e [suscitar] uma procura de sentido de vida.
Não está sempre tudo bem e existe a morte, existe a perda, existe o luto, existe o sofrimento. Faz parte. Tal como existe a alegria. Faz parte da maravilha e do risco que é estar vivo
A morte é vida, faz parte da vida, é uma coisa natural. Não há forma de fugir a ela, e ainda bem, se calhar. É mesmo preciso falar destas coisas. Faz mal não falar, porque vão aumentando os medos e o tabu. Por exemplo, no início de um Death Cafe, digo sempre: ‘vou morrer de certeza, mas já vim a muitos Death Cafes e não foi por isso que morri’. O falar da morte não chama a morte, não é preciso bater na madeira. Faz muito mal não falar da morte. Primeiro, engrandece o medo. Depois, não deixa as pessoas que estão em fim de vida fazerem as suas tarefas de fim de vida, que é deixar um legado, que é dizer ‘eu amo-te’, ‘perdoo-te’, ‘perdoa-me’.
Falo sempre de uma senhora que estava em fim de vida e que chamou uma amiga para lhe fazer um grande favor; ela lá foi, cheia de medo, e afinal queria um caderno para passar as receitas dela. Cada vez que pedia em casa, diziam-lhe, ‘não há caderno nenhum, a mãe não vai morrer, não se fala disso’. Claro que amam a senhora e estavam a fazer o seu melhor, mas estavam a evitar que deixasse o seu legado. Era uma ótima cozinheira e queria deixar isso para a sua família. Não falamos nisto num sentido macabro; os Death Cafes não são coisas com caveiras. Falamos disto para vivermos mais, lembrar a finitude da vida e a importância de a aproveitar bem.
Sim, há muito essa tendência de dizer, ‘vai correr tudo bem, não penses assim, não estejas assim’.
É uma positividade tóxica. Não está tudo bem, não está sempre tudo bem, não somos todos jovens e maravilhosos. Não está sempre tudo bem e existe a morte, existe a perda, existe o luto, existe o sofrimento. Faz parte. Tal como existe a alegria. Faz parte da maravilha e do risco que é estar vivo.
A partilha é salvadora. Partilhar com outros, que sabemos que sabem ouvir, ajuda muito no caminho, que único e só a própria pessoa o pode fazer, mas ter uma presença compassiva ajuda muito
Em que consiste o movimento das cidades e comunidades compassivas?
É muito esta ideia de que, nas cidades grandes – e também nas mais pequenas –, estamos a perder esta noção da vizinhança compassiva. Como é que é possível que haja pessoas que morrem sozinhas? Não queremos voltar atrás, nada disso, mas como é que podemos capacitar-nos para abordar estes temas de uma forma mais compassiva e para nos envolvermos no cuidado de quem está a viver estas situações, para que a norma não seja a solidão, que muitas vezes é, e passe a ser a compaixão? Queremos dinamizar redes compassivas comunitárias, que as pessoas participem e se envolvam no cuidado das pessoas da sua comunidade.
A Compassio atua em várias esferas para trazer a morte, a doença e o apoio nos cuidados paliativos para o debate público. Das várias iniciativas que já promoveram, quais diria que foram mais eficazes neste propósito?
Mais impacto em termos de pessoas são as coisas grandes. Por exemplo, o mural ‘Antes de morrer, eu quero’. Agora, no dia 24 de maio, no Porto, vamos fazer o ‘Festival do Luto’. Mas com mais impacto são os grupos de partilha para pessoas em processo em luto. É uma coisa profunda, são sete sessões, sempre o mesmo número de pessoas. Consegue chegar-se fundo e sanar a dor. Em todos os casos não, mas consegue-se encontra comunidade e escuta, que é uma das coisas que mais faz falta na nossa sociedade.
Precisamos todos de aprender a escutar melhor e na Compassio tentamos muito treinar esta questão da escuta. A partilha é salvadora. Partilhar com outros, que sabemos que sabem ouvir, ajuda muito no caminho, que único e só a própria pessoa o pode fazer, mas ter uma presença compassiva ajuda muito. Mas os workshops também. Achamos mesmo que, se aquela hora e meia desta vida finita foi boa, fez pensar, já valeu a pena.
Ouve-se muito, ‘não vou, que não sei o que lhe dizer’. Não interessa, não é preciso dizer nada. Vá, dê um abraço, não abandone. E é seguir o que a pessoa que está em sofrimento quer. Quando morreu o meu pai foi a primeira vez que vi isso. Dizia, ‘não, não precisam de vir’. Depois, os amigos começaram a vir e foi tão bom. Só quando passamos pelas coisas é que percebemos. A partir daí, nunca mais deixei de ir a algum funeral.
Vamos fazer uma campanha publicitária, que se vai chamar ‘Em luto contigo’, com testemunhos de pessoas reais, que vão dizer o que gostam e o que não gostam de ouvir sobre o seu processo de luto, para que todos possamos aprender a ser mais compassivos.
É impressionante vivermos em civilização há tanto tempo, passarmos pela morte e pelo luto há tanto tempo, mas continuarmos sem compreender como lidar com isso, além de haver tanta discrepância entre o nascimento e a morte.
É isso, preparamos tudo o que é incerto na vida, menos a coisa mais certa, que é a morte. Também não acredito que a morte seja o contrário da vida; a morte é o contrário do nascimento. Preparamos o nascimento com uma grande alegria, mas também devíamos preparar a morte. Se com alegria, já não sei. O meu pai deixou uma lista enorme do que é que queria e deu a toda a gente. Na altura gozava um bocado com ele, mas foi ótimo. Quando ele morreu, só tivemos de fazer o que ele disse e isso deu-nos uma paz enorme.
Desde que criou a Compassio, o que é que aprendeu sobre a morte e, sobretudo, sobre a vida?
É mesmo curtinha e temos de viver ao máximo, tentar que a nossa vida seja o mais completa possível, em cada dia. Não com uma pressa enorme, mas também não com uma lentidão enorme. No fundo, sentir que cumpri o dia e fui aquela pessoa que me sinto chamada a ser, dentro das minhas limitações todas. Tomar mais consciência da finitude para viver mais, mais plenamente, mais profundamente.
Mencionou, numa outra entrevista, que “o tempo que se dá a uma pessoa que está em luto não é suficiente”. Nessa linha, considera que o tempo das licenças de nojo deveria de ser adaptado, por forma a valorizar mais a pessoa que está em sofrimento, em detrimento da produção e do trabalho, por exemplo?
Não sei se é só pelas leis, mas nos trabalhos as pessoas serem mais compassivas. Cada um tem o seu tempo. O luto é muito particular, mas também muito universal e comunitário – todos passamos por ele. Não há regras.
Até por uma questão de sustentabilidade, temos vários serviços para empresas e organizações, como possível a escuta empática e compassiva, liderança compassiva, e queremos trabalhar cada vez mais o tema do luto, até mais nas instituições ligadas à área da saúde e social. Quando morre um utente, o que é que se faz? Deixa-se de falar daquela pessoa? É importante falar, é importante ter algum ritual e não esconder debaixo do tapete. Muito respeito por cada pessoa e por cada maneira de ser, mas acredito muito que o não falar não é bom.
O que mais quero fazer na vida é falar da Nini, que morreu há 21 meses. A Nini é estrondosa. Aceitou a doença dela e a finitude de uma forma completamente extraordinária
Tendo em conta a sua experiência, as pessoas que já passaram pela morte de um ente querido ou que já viveram algum trauma estão mais abertas a este tipo de iniciativa, ou a associação também recebe quem ainda não passou por este tipo de processos?
Sem dúvida nenhuma que quem já se aproximou do tema é quem vem mais às nossas atividades. Também são maioritariamente acima dos 40 anos, mas queremos muito chegar aos mais jovens.
Numa sociedade pautada pela positividade tóxica e pelo culto do ‘vai ficar tudo bem’, como é que podemos fazer as pessoas ver que falar sobre a morte é falar sobre a vida?
Através da beleza, através da arte. Cada vez usamos mais a arte nas nossas atividades, porque achamos que tratamos temas muito densos e a arte é um meio ideal para pegar neles. Temos muitas oficinas com arte para pessoas em processo de luto, mas o luto visto de uma forma muito aberta, a perda de algo significativo. Um divórcio, uma mudança de país, uma perda de emprego, seja o que for. Todas as perdas contam e têm um significado. Temos um conjunto de oficinas para as pessoas expressarem a sua dor através da arte.
Participou na edição de 2022 do TEDxPorto, onde abordou não só o trabalho da associação, mas também a vivência da sua filha. Fale-me um pouco sobre ela.
O que mais quero fazer na vida é falar da Nini, que morreu há 21 meses. A Nini é estrondosa. Aceitou a doença dela e a finitude de uma forma completamente extraordinária. Criou um canal em várias plataformas, que se chama ‘A morrer comigo’, e falava de tudo. Falava abertamente da morte e deu-nos uma lição enorme a todos. Hoje parece que tenho ‘morte’ e ‘luto’ na testa, mas tenho outras coisas. Pessoas em luto vêm falar comigo e gosto imenso. Uma pessoa disse-me, ‘não sabes o quanto a Nini tem feito por mim’. Agora, porque continua a ver as coisas dela e têm-na ajudado a processar o seu luto e a viver o seu luto. Sinto um orgulho enorme de ser mãe desta pessoa estrondosa. É uma alegria, a Nini é uma alegria.
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