Na quarta-feira, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou uma tarifa de base de 10% sobre todas as importações dos Estados Unidos da América (EUA), mas que varia conforme os diferentes países ou blocos, tendo a UE sido sujeita a taxas de 20%.
O Reino Unido ficou-se pelos 10%, diferenciação que o antigo diplomata português já tinha antecipado.
O favoritismo poderá ser um resultado do intenso esforço diplomático do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, para se manter próximo de Trump, segundo admitiu Vale de Almeida em declarações à Lusa em Londres, mas o antigo embaixador receia existirem outras intenções.
"Ao dar um tratamento mais favorável ao Reino Unido, também é uma mensagem para nós, para nos tentar dividir", referiu o antigo embaixador da UE em Washington (2010-2014).
Desde a entrada em funções do Governo britânico trabalhista, em julho, Keir Starmer tem feito um esforço na reaproximação do Reino Unido à União Europeia, cujas relações azedaram durante anos devido ao 'Brexit' (processo da saída de Londres do bloco europeu que foi oficializada a 31 de janeiro de 2020).
A cooperação tornou-se mais urgente nos últimos meses, após o anúncio dos EUA de desinvestir na segurança europeia, e na necessidade de apoiar a Ucrânia, perante a invasão russa e num futuro processo de paz.
Uma primeira cimeira Reino Unido-UE está agendada para 19 de maio em Londres, favorecida, segundo Vale de Almeida, pela "qualidade do nosso relacionamento, que melhorou imenso".
"Acho que há hipótese de avançar claramente na área da segurança e defesa a toda a velocidade, mas, ao mesmo tempo, na relação económica, há alguns aspetos que poderão ser melhorados na área da energia, na área da mobilidade dos jovens, na área da gestão das emissões climáticas", afirmou Vale de Almeida, que foi o primeiro embaixador da UE pós-'Brexit', entre 2020 e 2022.
No entanto, não afasta "uma tentativa dos americanos de dividirem para reinar entre os ingleses e os europeus", eventualmente oferecendo um acordo comercial que seja incompatível com as regras da UE.
"Temos que ser, dos dois lados, muito hábeis. O senhor Starmer não se pode deixar levar demasiado facilmente pelo encantamento 'trumpiano'. E nós temos que perceber que uma relação boa entre Starmer e Trump também é bom para nós. Pode ser útil", salientou.
"Se gerirmos com inteligência esta relação trilateral, podemos avançar positivamente", frisou.
O antigo diplomata, aposentado há três anos, encontra-se em Londres para apresentar o seu livro "O Divórcio das Nações", cuja edição em português deverá ser lançada em outubro.
No livro, fala da sua experiência de 40 anos de trabalho para a UE, onde ocupou vários cargos superiores, incluindo o de chefe de gabinete do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
"Acho que Portugal tem tido um desempenho largamente acima do seu peso relativo nacional, estou muito contente por isso, e muito honrado por ter contribuído modestamente para isso, mas, sobretudo, contente pelo país ter essa projeção, e acho que temos de manter isso, porque é fundamental para nos alavancar", afirmou.
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