Numa entrevista à agência de notícias EFE, Elene Vuolo, que se encontra em Naypyidaw, capital de Myanmar (antiga Birmânia), afirmou que o sismo de magnitude 7,7, de 28 de março, é o primeiro grande desastre natural no mundo desde que os Estados Unidos abandonaram a OMS, em janeiro deste ano.
Mais de 3.000 pessoas e 9.000 ficaram desalojadas, de acordo com o último balanço da junta militar birmanesa.
A médica precisou que a OMS tinha este ano o objetivo de ajudar 12,9 milhões de pessoas com necessidade de cuidados de saúde em Myanmar, mas teve que baixar para oito milhões, depois da decisão do Presidente norte-americano, Donald Trump, de retirar o país daquela agência especializada da ONU.
"Infelizmente, desde janeiro deste ano, houve uma mudança política nos Estados Unidos, com a qual um dos maiores contribuidores e doadores de Myanmar e de todo o sistema de ajuda humanitária deixou de existir", declarou a responsável da OMS por videoconferência, precisando que os cortes também afetaram o Afeganistão e outros países.
"Se não temos dinheiro, temos de dar prioridade aos serviços que podemos prestar e temos, então, de reduzir a população-alvo a que pensamos poder acudir", acrescentou, alertando para o elevado risco de surtos de cólera em Myanmar devido à dificuldade de acesso a água potável.
Vuolo indicou que muitos hospitais foram destruídos ou danificados pelo terramoto, o que está a esgotar a capacidade dos serviços de saúde em funcionamento.
"Eu mesma, na sexta-feira à tarde, tive de tratar e levar um colega para o hospital (...) Fomos expulsos de três hospitais, porque dois tinham desabado e o terceiro estava cheio de pessoas nas urgências e não podia receber mais doentes", relatou a subdiretora da OMS.
A especialista destacou a necessidade de Myanmar autorizar a entrada de mais equipas médicas de emergência no país, apesar de já haver algumas da China, da Rússia, do Japão e da Índia no terreno.
Explicou que seriam necessárias mais equipas médicas, como a equipa italiana, com capacidade para construir hospitais temporários.
No entanto, Vuolo reconheceu que as autoridades de Myanmar reagiram ao sismo, preparando clínicas móveis e que é normal que a junta militar se dirija inicialmente a países que partilham as mesmas ideias, como a China e a Rússia, para obter ajuda.
A OMS não pode intervir em zonas sob o controlo de guerrilhas étnicas ou da oposição democrática do Governo de Unidade Nacional (NUG, na sigla em inglês), que têm sistemas de saúde e de emergência próprios.
"Eles têm estado a criar o seu próprio sistema de saúde (...), têm a sua própria rede para comprar medicamentos, para prestar assistência médica às comunidades", afirmou Elene Vuolo.
Os danos causados pelo sismo vieram somar-se aos da guerra civil em curso no país, entre a junta militar que tomou o poder num golpe Estado em 2021 e várias guerrilhas étnicas e forças do NUG da oposição.
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