"Queremos saber porquê é que entre uma versão preliminar e a versão final há um capítulo sobre ameaças à extrema-direita que é excluído do RASI, e é o primeiro-ministro quem tem de responder", defendeu a coordenadora do BE, Mariana Mortágua, em conferência de imprensa na sede nacional do partido, em Lisboa.
Mortágua salientou que "o capítulo amputado" do RASI -- intitulado "extremismos e ameaças híbridas", que constava na versão preliminar do relatório e foi retirado da versão final -- menciona "os 'influencers' de extrema-direita e a sua promoção da violência contra mulheres".
"Achamos que é particularmente importante no momento em que tanto se discute um caso específico de violação de uma jovem em Loures, que foi divulgado nas redes sociais e que sabemos ter precisamente envolvido este tipo de influência de personalidades de extrema-direita que estão a promover este tipo de comportamentos e de atitudes machistas e de violência sexual e de violência contra mulheres", criticou.
Mariana Mortágua salientou que se o Governo não explicar o desaparecimento deste capítulo da versão final do documento deixa abertura para interpretação e "as interpretações são todas as piores possíveis".
"Será que o Governo desvaloriza as ameaças de extrema-direita? Será que as ameaças de extrema-direita não convêm à narrativa que o Governo quer criar baseada em perceções sobre o que é que é e o que é que não é insegurança?", questionou.
Além deste capítulo "amputado", o BE quer que Luís Montenegro dê explicações sobre um parágrafo que consta na versão final do RASI.
Na página 31, no capítulo dedicado à "Análise da situação nacional", o RASI menciona que "ao nível económico, a presença de operadores e fornecedores estrangeiros, considerados de risco, em infraestruturas críticas e setores estratégicos nacionais, mereceu avaliação preventiva de ameaças à segurança interna, considerando, igualmente neste contexto, a salvaguarda da segurança económica nacional".
"Isto quer dizer que o PSD privatizou a energia para empresas estrangeiras, nomeadamente empresas do Estado Chinês. Essas infraestruturas são críticas para a soberania nacional e para a segurança económica e são de tal forma críticas que estão a ser avaliadas no relatório de segurança interna. É um parágrafo preocupante, grave e que merece ser discutido", argumentou.
Interrogada sobre o facto de o parágrafo em causa não mencionar diretamente empresas chinesas, Mortágua admitiu que podem estar em causa outras, como a multinacional francesa Vinci que detém a ANA -Aeroportos, mas que o partido refere as empresas de energia "porque elas são uma infraestrutura crítica hoje em dia e que já foi alvo, aliás, de críticas internacionais, porque está nas mãos de um outro Estado".
Mariana Mortágua considerou que o Governo "tem que explicar que avaliação de risco é esta".
"Num momento em que se discute Defesa, e em que entramos numa corrida absurda armamentista, em que nos dizem que vamos ser atacados e invadidos pelo Cais do Sodré, as reais ameaças à segurança são estas, e sobre estas ninguém quer discutir", criticou.
A bloquista desafiou o chefe do executivo a esclarecer estas questões quer no parlamento, num debate já requerido pelo BE com a presença do Governo, quer antes, em declarações públicas.
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