Os economistas da Allianz Trade começam por salientar, numa nota de análise, que as tarifas anunciadas por Donald Trump excederam as expectativas dos analistas, seguindo-se agora uma fase de negociações e retaliações que aumenta a incerteza.
"Não está claro como será o cenário final das tarifas, mas o custo da incerteza é alto", sinalizam os economistas, numa nota de análise, estimando que o "crescimento do PIB global cairá para apenas 1,9%, o menor nível desde 2008".
Já o comércio global de bens deverá contrair, numa redução de 0,5% em volume, enquanto a inflação nos EUA pode atingir um pico de 4,3% até o verão, segundo as projeções da Allianz Trade.
A maioria dos analistas consultados pela Lusa aponta que os custos mais altos serão sofridos pela própria economia americana.
Johanna Kyrklund, diretora de Investimentos do Grupo Schroders, nota que "a ronda inicial de Trump aponta para tarifas mais altas do que o esperado, e as previsões económicas [do grupo] estão a ser revistas em baixa, com uma expectativa de crescimento do PIB dos EUA em torno de 1% para 2025".
Paolo Zanghieri, economista sénior da Generali Investments, salienta numa nota de análise que se espera que os direitos aduaneiros impactem mais os EUA, reduzindo o seu PIB em 1,5%. Neste cenário, a incerteza persiste, afetando o dólar e os mercados acionistas a curto prazo, nota.
Henrique Valente, analista da ActivTrades, também destaca, num comentário, que as tarifas "surpreenderam os mercados pela sua escala e abrangência", sendo que "os investidores enfrentam agora uma reavaliação profunda dos riscos económicos imediatos e da possível reconfiguração do comércio global nos próximos anos".
O analista antecipa que "a incerteza sobre retaliações dos parceiros comerciais dos EUA continuará a pesar sobre os mercados durante as próximas semanas, alimentando a aversão ao risco e mantendo a volatilidade elevada", tendo em conta que a China já retaliou com tarifas de 34% sobre bens americanos e a UE prepara-se para anunciar a 09 de abril a sua resposta.
A situação coloca também um desafio para a Reserva Federal dos EUA, destaca, uma preocupação também ecoada pela maioria dos analistas.
Paul Diggle, economista chefe na Aberdeen, estima que "o aumento total nas tarifas dos EUA ontem [na quinta-feira] e nas últimas semanas pode adicionar 2% ao nível de preços e empurrar o PIB [dos EUA] para baixo em 1-2%".
Perante este cenário, a Reserva Federal (Fed) "enfrenta um trade-off difícil", sinaliza, tendo em conta o recente aumento acentuado nas expectativas de inflação.
Num discurso hoje, o próprio presidente da Fed, Jerome Powell, já assumiu que as novas tarifas deverão acelerar a inflação e abrandar o crescimento económico, no entanto salientou que o foco do banco central será manter os aumentos de preços temporários.
"A nossa obrigação é [...] garantir que um aumento único no nível de preços não se torne um problema contínuo de inflação", disse Powell.
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